Entre os dez e os quinze anos de idade, fiz parte de um grupo de teatro amador na escola. Levávamos um ano escolar inteiro a preparar a peça de final de ano e, pelo meio, participávamos em atividades desenvolvidas pela companhia de teatro local. Ao todo, tive papéis em mais de dez peças de teatro, muitas delas complexas e com bastante tempo de exposição sobre o palco. E adorava.

Durante a faculdade, era capaz de fazer apresentações para as quais não estava minimamente preparada e ainda assim convencer os professores disso (hoje em dia, não é algo de que me orgulhe…). Consegui algumas boas notas graças à confiança com que fazia a apresentação, ainda que esta tivesse sido preparada horas antes da aula.

Ao entrar para a idade adulta, concluir a faculdade e começar a minha vida profissional, comecei a sentir medo de falar em público. De cada vez que tinha de fazer uma apresentação ou falar numa reunião, os sintomas iam para lá do simples nervosismo: cada experiência implicava náuseas, dores de estômago, dores de cabeça, palpitações…

O que aconteceu entretanto?

MEDO DE FALAR EM PÚBLICO – UMA HERANÇA GENÉTICA

Não sou, nem serei, a única a sofrer deste medo. Se falar em reuniões te põe a tremer, relaxa, não estás sozinha. Estamos juntas nisto. Não é algo exclusivo ao género feminino, mas é uma característica muito comum nas mulheres, especialmente em ambiente profissional. 

Trata-se da herança de dezenas de anos em que a mulher foi mantida à margem dos debates e da vida pública. Existem inclusivamente dados que comprovam isto: entre muitos outros, um estudo da Universidade de Brigham concluiu que 75% do tempo das reuniões de trabalho é ocupado pela intervenção masculina

No livro Not Just Lucky, Jamila Rizvi expõe a herança cultural e estrutural que rouba a confiança às mulheres no momento de falar em público, mesmo que, muitas vezes, elas não se apercebam desta falta de confiança.

“Em média, as mulheres intervêm menos nas discussões que se desenrolam nas salas de aulas, nos escritórios, nas reuniões, nos parlamentos, nos tribunais.”

Jamila Rizvi, Not Just Lucky

Embora a mulher esteja ativa e deliberadamente no mercado de trabalho há décadas (pelo menos, de uma forma generalizada e no mundo ocidental), embora haja cada vez mais mulheres nas empresas, as estruturas hierárquicas e a forma como nos organizamos em equipa ainda estão desenhadas para um mundo só de homens.

No meu caso, o medo de falar em público foi despontado por vários factores:

  • Sou naturalmente introvertida
  • Sou altamente exigente comigo mesma
  • Tenho uma percepção da minha imagem completamente desviada do real
  • Trabalhei em algumas empresas com uma cultura maioritariamente masculina
  • Mudei de emprego e de empresa várias vezes ao longo do percurso
  • Nos primeiros anos de carreira, eu era sempre tratada como a miúda

Demorava (e ainda demoro) algum tempo a sentir-me confortável o suficiente para poder fazer uma apresentação ou intervir numa reunião sem sentir os sintomas que descrevi anteriormente. E, mesmo depois de conseguir controlar estes sintomas, é frequente gaguejar, a corar e a apresentar um discurso fragmentado e pouco coerente.

Sou muito acelerada e muito descoordenada nos pensamentos. Se num minuto estou a pensar em laranjas, no momento seguinte posso muito bem estar a pensar em espinafres, sem conseguir explicar o caminho que o meu cérebro fez de um ponto ao outro.

No entanto, descobri que, com alguns truques, consigo ganhar confiança e não só melhorar as minhas apresentações, como também projetar uma imagem mais calma e organizada de mim mesma.

Tudo isto é um percurso e eu sinto que, de cada vez que sou apresentada a uma audiência diferente, tenho de recomeçar quase do zero. Mas não é verdade. Todo o percurso que fiz, desde o início da minha vida profissional até agora, permitiu-me controlar o medo de falar em reuniões.

É uma das minhas maiores fragilidades e que partilho aqui, de coração aberto, porque sei que há quem sofra do mesmo e ainda não tenha encontrado o truque para sentir um pouquinho mais de confiança.

5 DICAS QUE TE PODEM AJUDAR A CONTROLAR O MEDO DE FALAR EM PÚBLICO

1. NÃO OUÇAS O QUE TE DIZEM 

Há a tendência para desvalorizar os problemas dos outros – especialmente quando estes problemas são tão etéreos como o medo de um contexto ou situação. Embora haja cada vez mais consciência para coisas como a depressão e a ansiedade, tudo o que se passa na nossa cabeça ainda é altamente subvalorizado.

Uma das piores coisas que me podem dizer (e aposto que a ti, também) é “Relaxa! Estás nervosa para quê?”. Chegaram a sugerir-me que tomasse um “calmante fraco” antes de uma apresentação muito importante, o que eu fortemente recusei porque: 1) os calmantes são medicamentos e, como tal, devem ser tomados com acompanhamento especializado; 2) eu preciso de me sentir confiante, não dormente.

Em vez de tentar relaxar, tenta entusiasmar-te com o que estás presentes a fazer. Qual é a diferença? O nosso cérebro funciona com dois sistemas diferentes: o sistema que te faz agir e o sistema que te faz parar. Para diferentes pessoas, o medo desperta diferentes respostas: há quem bloqueie, quem atue precipitadamente… Para quem bloqueia, é preciso “mudar o chip” e sentir entusiasmo em vez de medo.

Há uma TED talk sobre isto e que recomendo que vejas. É com a escritora Susan Cain e chama-se The Power of Introverts. Nesta apresentação, a autora fala muito mais explicitamente sobre como o cérebro funciona e como se pode transformar a ansiedade numa emoção diferente como, por exemplo, o entusiasmo.

2. PREPARA-TE ANTES DA REUNIÃO

Uma das coisas que mais me ajuda a sentir confiante é estar preparada. Preparo toda e qualquer intervenção que tenha de fazer em público e que consiga planear de antemão: entrevistas, reuniões, apresentações, etc.

Mesmo que seja apenas uma reunião informal, podes preparar alguns argumentos previamente, para que te sintas mais confortável no momento de falar.

Pega num papel e numa caneta e escreve algumas notas sobre o tema. Ajuda muito se tiveres acesso à agenda da reunião, poderás conhecer os temas abordados e preparar o que queres dizer. Caso contrário, escreve apenas os temas sobre os quais queres falar.

O objetivo não é construir um guião nem que as tuas intervenções sejam lidas a partir de um papel, mas sim organizar as ideias. Para muitas pessoas, o que é realmente stressante é a dificuldade em articular tudo o que nos passa pela cabeça. 

Se já tiveres arrumado as ideias e tiveres uma estrutura clara do que queres dizer, será muito mais fácil explicar o teu ponto de vista.

3. NÃO PENSES DEMASIADO NO ASSUNTO

Sou daquelas pessoas capazes de criar toda uma história na minha cabeça… Só que este poder de antecipação joga quase sempre contra mim, deixando-me ainda mais nervosa. Desligar do assunto – seja ele qual for – é imperativo para conseguir ter bons resultados mais tarde. Caso contrário, vou estar tão enervada que não me vai sair nada de jeito.

Para quem sofre de ansiedade, é comum que a reação a algo que causa desconforto seja construir todo o tipo de cenários imaginários. Imaginas que te vais engasgar, que te vão interromper, que não vais ser capaz de transmitir as tuas ideias…

Quanto mais pensas, maior é a ansiedade. E, embora seja muito fácil dizer “não penses no assunto!”, aquele tema vai estar sempre a dançar na tua mente.

Para evitar que a ansiedade tome conta de ti, tenta que a tua intervenção aconteça logo no início da reunião ou da apresentação. Fala com o organizador, pede para ser uma das primeiras a apresentar, ou pede para falar logo no início da reunião.

Quanto mais depressa conseguires apresentar os teus argumentos, menos tempo terás para ficar ansiosa.

4. PEDE FEEDBACK

Esta dica pode parecer um bocado contraditória, sendo que a minha primeira dica é que não ouças os outros. Talvez eu estivesse errada. Na verdade, tu deves ouvir, sim… Mas apenas quem te possa dar um contributo construtivo e útil. 

Depois da reunião ou apresentação, escolhe alguém com quem tenhas confiança suficiente para pedir feedback (mas não a suficiente para saber que poderá mentir para te agradar…). Pode ser uma colega de outro departamento, ou alguém que saibas que é neutro o suficiente para fazer uma avaliação do teu desempenho.

Explica as tuas dificuldades (o mais provável é que essa pessoa sinta, ou já tenha sentido, as mesmas dificuldades que tu) e faz algumas perguntas sobre a tua prestação. Perceberam os teus argumentos? Sentiram clareza na tua exposição? O que podes fazer para melhorar?

5. OLHA PARA TI MESMA

Quando comecei a aperceber-me das minhas dificuldades, tive vergonha de pedir feedback. Achei que explicar que tinha dificuldades em falar em público fazia de mim o elo mais fraco.

A certa altura, frequentei um workshop com uma coach vocal onde ela nos pedia para fazer uma série de apresentações, com um tema à escolha, e ia gravando cada intervenção nossa. No final, pudemos ver a nossa própria prestação gravada. 

Ver-me em gravação foi muito desconfortável, mas também profundamente transformador. Permitiu-me perceber onde e como errava. Permitiu-me perceber que tipo de imagem transparecia quando estava a apresentar algo (e não era uma imagem bonita…).

Ainda hoje uso a gravação para aumentar a auto-consciência. É uma excelente ferramenta para me conhecer e para melhorar as minhas capacidades de falar em público.

E DEPOIS?

Todas as dicas que te dou, já as coloquei em prática eu mesma. E ajudaram-me bastante. Se eliminaram por completo o medo de falar em público? Não. Mas tornaram-me mais confiante. E fizeram-me perceber que o medo deve ser domado – e não há nada mais eficaz para domar um medo do que aceitá-lo, compreendê-lo e analisá-lo.

Espero que estas dicas te ajudem!